A Situação Atual do Irã de Tensão com os EUA Podem Escalar para a Guerra
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Adauto Jornalismo* com o canal @AdautoRibeiroReporter
O Irã vive hoje um momento de grande tensão interna e externa. Nos últimos anos, o país foi palco de manifestações massivas, que resultaram em mortes, prisões e forte repressão.
Esses protestos nasceram de forma orgânica, sem liderança centralizada, e reuniram diferentes setores da sociedade iraniana, inclusive grupos que antes não se posicionavam contra o regime. A insatisfação popular é alimentada por fatores como inflação altíssima — em torno de 50%, chegando a 70% em alguns alimentos —, desvalorização da moeda, corrupção e a hipocrisia das elites políticas, cujos filhos vivem no exterior em condições privilegiadas enquanto a população enfrenta dificuldades severas.
O Irã no Cenário Mundial
O Irã é considerado parte de um bloco de países autoritários com ambições revisionistas, ao lado de Rússia, China e Coreia do Norte. Esse grupo busca reescrever e redesenhar a ordem internacional, contestando a distribuição atual de poder no sistema global. Diferente da Arábia Saudita, que também é uma ditadura, mas não tem esse projeto revisionista, o Irã se posiciona como ator que deseja alterar as regras do jogo mundial. Apesar disso, os aliados não demonstram disposição plena para defendê-lo: nem Rússia nem China intervieram quando o programa nuclear iraniano foi atacado por Estados Unidos e Israel.
Questão Nuclear e Relações Regionais
O Irã nunca recebeu diretamente uma bomba nuclear de seus aliados. Nem Rússia, nem China, nem Coreia do Norte estiveram dispostos a fornecer esse armamento pronto. O Paquistão, por sua vez, mantém um acordo nuclear com a Arábia Saudita, mas não com o Irã. Houve, no entanto, proliferação de tecnologia nuclear por meio de cientistas paquistaneses, que venderam projetos e componentes para diversos países, incluindo o Irã. Essa relação é marcada por tensões, já que recentemente houve até troca de ataques de mísseis entre Irã e Paquistão.
Estrutura Interna e Possibilidade de Mudança
O regime iraniano é sustentado pela Guarda Revolucionária, que controla o uso da força e permanece fiel ao sistema teocrático dos aiatolás. A liderança dessa guarda é composta por uma velha guarda extremamente leal, mas existe a expectativa de que escalões mais jovens possam eventualmente desertar ou se voltar contra o regime. Esse seria um dos caminhos possíveis para uma mudança interna, já que o regime ainda detém o monopólio da violência e as pessoas precisam estar dispostas a arriscar a vida para enfrentá-lo.
Pressão Internacional e Interesses dos Estados Unidos
Os Estados Unidos veem vantagem estratégica em enfraquecer ou derrubar o regime iraniano, tanto por razões geopolíticas quanto pela estabilidade da região. O massacre de manifestantes pode servir como justificativa política para uma intervenção. Recentemente, os EUA reposicionaram porta-aviões e ativos militares no Oriente Médio, preparando-se para possíveis operações ofensivas a partir do mar, já que países vizinhos não permitem o uso de suas bases terrestres para ataques contra o Irã.
O Irã, portanto, ocupa uma posição paradoxal: é uma civilização antiga, com grande território, vastas reservas de petróleo e uma população de mais de 90 milhões de habitantes, mas enfrenta uma crise interna profunda e crescente isolamento internacional. A combinação de insatisfação popular, repressão violenta e pressões externas cria um cenário de instabilidade que pode, em algum momento, levar a transformações significativas no país.
O Irã e a Estratégia de Trump
Nos últimos anos, o Irã tem se tornado um alvo recorrente das ações militares e políticas dos Estados Unidos, especialmente durante os mandatos de Donald Trump. Ele já havia ordenado o assassinato de Qassem Suleimani, líder da Guarda Revolucionária, e posteriormente atacado instalações nucleares iranianas. Além disso, conduziu operações bem-sucedidas em outros contextos, como na Venezuela, o que parece ter reforçado sua confiança em realizar novas ofensivas contra o regime iraniano.
Bases Militares e Operações
As bases terrestres americanas na região são utilizadas apenas para fins defensivos, já que os países que as abrigam não permitem que sejam usadas para ataques diretos contra o Irã. Por isso, qualquer operação ofensiva depende de ativos militares posicionados no mar, como porta-aviões e navios de guerra. Isso limita a ação a bombardeios pontuais e estratégicos, sem envolvimento de tropas terrestres, algo que seria politicamente inviável nos Estados Unidos.
Objetivos e Alvos Possíveis
Um ataque aéreo não teria capacidade de derrubar o regime iraniano, mas serviria como mensagem política e psicológica. Os alvos mais prováveis seriam instalações nucleares, programas balísticos, estoques de mísseis e prédios ligados à Guarda Revolucionária. Essas ações não eliminariam completamente a estrutura militar iraniana, mas enfraqueceriam sua capacidade e enviariam um recado claro ao regime. Em casos extremos, poderia haver até a tentativa de atingir diretamente lideranças como o aiatolá Ali Khamenei.
Impacto Interno e Externo
Para os manifestantes iranianos, um ataque americano poderia representar um sinal de apoio externo, aumentando sua coragem e disposição para enfrentar o regime. No entanto, sem tropas em solo, os efeitos seriam limitados a esse estímulo simbólico. Politicamente, Trump enxerga essas ações como de baixo custo e alto benefício: não geram baixas americanas, não exigem grande justificativa interna e reforçam sua imagem de líder que enfraquece inimigos estratégicos.
Relações com Rússia e China
Embora Trump não declare abertamente, suas movimentações contra o Irã também têm o efeito indireto de dificultar a vida de Rússia e China, que mantêm relações com Teerã. Ele evita explicitar esse objetivo para não criar um confronto direto, mas suas ações fazem parte de um jogo mais amplo de contenção. Ao mesmo tempo, envia sinais ambíguos: por exemplo, questiona a obrigação americana de defender Taiwan, mas continua vendendo armas ao país, o que provoca reações militares da China. Essa ambiguidade mostra que sua estratégia não é linear, mas cheia de movimentos calculados e contraditórios.
O Irã permanece como peça central na política externa americana sob Trump. Os ataques não visam derrubar o regime diretamente, mas enfraquecê-lo, enviar mensagens internas e externas e, ao mesmo tempo, impactar o equilíbrio geopolítico envolvendo Rússia e China. O cenário é de alta probabilidade de novos bombardeios pontuais, mas sem qualquer perspectiva de invasão terrestre.
O Futuro Político do Irã e os Limites da Mudança
A possibilidade de um ataque direto contra o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, é considerada extremamente difícil. Ele vive protegido em bunkers subterrâneos, com acesso restrito, consciente de que é alvo prioritário. Mesmo que fosse eliminado, isso não significaria o fim do regime, já que a Guarda Revolucionária assumiria o poder. Essa instituição é vista como a continuação dos aiatolás, mas sem o elemento religioso explícito, mantendo forte ideologia e controle militar. Diferente da Venezuela, onde a queda de líderes poderia abrir espaço para mudanças mais amplas, no Irã a estrutura é mais rígida e resiliente.
A História e a Possibilidade de Surpresas
A Revolução Islâmica de 1979, que derrubou o xá, foi inesperada para muitos observadores da época. Isso mostra que a história pode dar voltas surpreendentes. No entanto, é improvável que o Irã se transforme em uma democracia plena caso o regime atual caia. A monarquia do xá era moderna e ocidentalizada em termos culturais e sociais, mas não democrática: concentrava poder em uma única figura, sem divisão institucional ou espaço para participação popular. Assim, mesmo que o regime atual seja substituído, o resultado pode ser outra forma de autoritarismo, talvez mais secular, mas não necessariamente democrático.
Comparações com a Arábia Saudita e a China
A Arábia Saudita é um exemplo de monarquia absolutista que busca modernizar-se sem abrir mão do controle político. O príncipe Mohammed bin Salman tem promovido reformas sociais, como maior liberdade para mulheres, e investido em megaprojetos de infraestrutura para transformar o país em um polo tecnológico e moderno, semelhante aos Emirados Árabes e ao Qatar. Ainda assim, permanece uma ditadura. A China também mostra que regimes autoritários podem gerar desenvolvimento econômico significativo, mas atingem um limite: em algum momento, precisam abrir espaço político ou enfrentam estagnação.
O Debate sobre Democracia
O conceito de democracia é complexo e sujeito a diferentes interpretações culturais. No Ocidente, há critérios claros: divisão de poderes, eleições livres, respeito a direitos individuais. No entanto, em outras regiões, pode haver interpretações distintas, que associam democracia a prosperidade econômica ou bem-estar social. Essa flexibilidade gera confusão, pois sem definições comuns, cada sociedade poderia inventar sua própria versão do termo, tornando impossível a comunicação. É por isso que existem parâmetros universais, ainda que debatidos, para definir o que é ou não uma democracia.
Autoritarismo e Flexibilização
Mesmo em países considerados democráticos, como os Estados Unidos, há debates sobre práticas autoritárias. O exemplo citado é o ICE (Immigration and Customs Enforcement), cuja postura rígida e ações muitas vezes são vistas como excessivamente autoritárias. Isso mostra que até democracias consolidadas podem enfrentar tensões internas sobre os limites da liberdade e da autoridade estatal.
O Irã vive um impasse: a queda do regime atual não garante uma transição para a democracia, mas pode abrir espaço para novas formas de autoritarismo, talvez mais modernas ou menos religiosas. A história já mostrou que mudanças inesperadas são possíveis, mas o caminho para uma democracia plena no país parece distante, especialmente diante da força da Guarda Revolucionária e da cultura política enraizada.
Democracia, Contradições e Autoritarismo
A discussão sobre democracia e autoritarismo revela como nenhum sistema político é absolutamente coerente ou perfeito. A democracia, por exemplo, carrega falhas e contradições, mas isso não significa que seja inválida. Pelo contrário, essas falhas refletem a complexidade da vida em sociedade, composta por seres humanos que não funcionam de forma linear ou impecável. A busca por coerência absoluta seria, na verdade, um desvio, porque não corresponde à realidade humana.
Segurança versus Liberdade
Um dos dilemas centrais da democracia é o equilíbrio entre segurança e liberdade. Para garantir maior segurança, muitas vezes é necessário restringir certas liberdades, e esse paradoxo acompanha todas as sociedades democráticas. Trata-se de uma contradição legítima e difícil de resolver, que exige debate constante e participação social. É um desafio estrutural, não um erro.
O Caso do ICE
Já práticas como as do ICE, nos Estados Unidos, são vistas como desvios autoritários dentro de uma democracia. O modo como a agência lida com imigrantes ilegais, muitas vezes mascarando agentes e agindo de forma dura, não decorre de um dilema complexo, mas de uma escolha política que rompe linhas democráticas. Isso não é fruto da tensão entre segurança e liberdade, mas sim um erro, uma escorregada que gera preocupação sobre possíveis escaladas de violência ou restrição de direitos.
Democracia e Ditadura
É importante reconhecer que a democracia tem falhas, mas essas falhas são parte de sua natureza dinâmica e plural. Já a ditadura, por definição, concentra poder e elimina contradições pela força, mas isso não significa que seja mais eficiente ou menos falha — apenas que suprime a diversidade de vozes. A democracia, mesmo imperfeita, permite que contradições sejam discutidas e enfrentadas, enquanto a ditadura as silencia.
A democracia não é um sistema perfeito, mas é justamente sua capacidade de lidar com contradições que a torna mais adaptável e legítima. O risco está quando desvios autoritários, como certas práticas do ICE, deixam de ser exceções e passam a sinalizar uma tendência de erosão das liberdades. É nesse ponto que sociedades precisam estar atentas, porque a linha entre democracia falha e autoritarismo crescente pode ser tênue.

