A Tempestade Perfeita — Inteligência Artificial, Bolhas Financeiras e o Futuro da Civilização
- José Adauto Ribeiro da Cruz

- há 2 horas
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Adauto Jornalismo* com o canal @AdautoRibeiroReporter e @josekoborioficial
A grande preocupação em relação à inteligência artificial é a bolha que está se formando. Já vimos muitas bolhas ao longo da história e estamos ficando craques em reconhecê-las.
O que chama atenção é o volume impressionante de dinheiro sendo aportado nesse setor, muitas vezes sem clareza sobre o retorno esperado. A lógica parece ser mais de competição: mesmo sabendo que pode estourar, os investidores apostam porque acreditam que haverá um pequeno grupo de vencedores. É a tese de que “computadores fazem dinheiro”, e por isso todos estão comprando chips e montando data centers, mesmo sem saber exatamente como rentabilizar esses investimentos.
Hoje, a única empresa que realmente ganha dinheiro com essa corrida é a Nvidia, porque vende os chips. Mas se a dinâmica parar, ela também terá problemas, e quem comprou suas ações pode perder muito. Já houve movimentos de trilhões de dólares em questão de dias, mostrando a volatilidade. Paralelamente, a indústria chinesa tenta rivalizar, o que aumenta a pressão. O mercado projeta valores de capitalização de mercado para a Nvidia que chegam a dezenas de trilhões de dólares em 2030, números que parecem descolados da realidade quando comparados ao PIB dos Estados Unidos. É muito valor para pouco retorno, e especialistas já apontam sinais claros de bolha.
O crescimento do índice S&P 500, por exemplo, está concentrado em poucas empresas — as chamadas “sete magníficas”. Se retirarmos essas companhias, o crescimento volta ao padrão normal. Isso lembra a bolha das empresas ponto com, mas agora em escala ainda maior: a capitalização de mercado já ultrapassa duas vezes o PIB americano. Há quem diga que a China pode ser o fator de desequilíbrio, mas também há quem acredite que ela não deixará seu principal credor afundar. O risco, se essa bolha estourar, é de uma nova grande depressão, um subprime tecnológico.
O ouro e a prata já estão em máximas históricas, reflexo da busca por proteção. Por trás de toda essa disputa está a inteligência artificial, que se tornou o centro da nova guerra fria tecnológica. E mesmo empresas como a Nvidia, que hoje parecem vencedoras, já mostram sinais de fragilidade: estoques triplicados, aumento de contas a receber e necessidade crescente de capital de giro. Isso indica que, apesar do entusiasmo, há limites financeiros e estruturais que podem transformar essa euforia em crise.
A Nvidia ainda apresenta lucros, mas quando se observa com atenção seus balanços, surgem sinais preocupantes. O aumento expressivo das contas a receber indica que a empresa está precisando oferecer mais crédito para que os clientes consigam comprar seus chips. O triplo crescimento dos estoques mostra que ela já não consegue vender tudo o que produz, apesar da enorme demanda aparente. Isso acontece porque, na prática, apenas um pequeno grupo de grandes empresas consome esses produtos, e muitas delas estão apenas acumulando capacidade em seus próprios servidores, sem transformar isso em receita imediata.
Há também um problema estrutural: os Estados Unidos não têm energia suficiente para sustentar o nível de processamento que seria necessário para rentabilizar todo esse investimento em inteligência artificial. Isso obriga a espalhar data centers pelo mundo, enquanto a China consegue operar de forma mais barata e eficiente, investindo fortemente em energia renovável e garantindo fornecimento adicional com projetos como o gasoduto Poder da Sibéria 2, que liga o gás russo ao mercado chinês. Em contraste, os Estados Unidos reduziram investimentos em energia limpa e reforçaram a dependência de combustíveis fósseis, o que limita sua capacidade de expansão tecnológica.
Esse cenário revela um conflito de interesses dentro do próprio governo americano, com setores ligados ao petróleo e ao gás influenciando decisões que vão contra a necessidade de energia renovável para sustentar a corrida da inteligência artificial. Paralelamente, empresas como a OpenAI já começam a pedir financiamento público, porque o aporte privado não é mais suficiente para sustentar uma ciranda trilionária de investimentos. O dinheiro circula entre poucas companhias, em um financiamento quase fechado, sem retorno real para o mercado mais amplo. Isso é um sinal clássico de bolha: quando o setor privado já não consegue manter o ritmo e o Estado é chamado a sustentar artificialmente o crescimento.
Enquanto isso, novas versões de modelos de linguagem são lançadas em ritmo acelerado, cada uma prometendo superar a anterior. Mas por trás da competição tecnológica, permanece a questão central: quem conseguirá manter o equilíbrio entre capacidade computacional, consumo de energia e sustentabilidade financeira? A China avança com alternativas mais baratas e menos dependentes da Nvidia, enquanto os Estados Unidos enfrentam uma equação cada vez mais difícil de fechar.
No fim das contas, ainda não dá para saber quem vai vencer essa corrida da inteligência artificial, mas é possível afirmar que existe competição dentro dos Estados Unidos, mesmo com toda a concentração de recursos em poucas empresas. Curiosamente, gigantes como o Google ainda não aparecem com força nesse bolo. Isso remete à palestra de Peter Thiel em Stanford, quando ele defendeu abertamente o monopólio, argumentando que o capitalismo só funciona dessa forma. Para ele, a concorrência é apenas uma ilusão dos livros de economia, já que todo empresário gostaria de reinar sozinho. Essa visão ajuda a entender por que, na prática, o foco das empresas americanas não é competir entre si, mas enfrentar a China.
A China consegue produzir mais barato porque trata energia como um bem público estratégico. O Estado fornece energia barata para as empresas, investe em transporte público e garante infraestrutura essencial para que a economia funcione. Nos Estados Unidos, ao contrário, a energia é privada e os fornecedores buscam maximizar lucro, o que torna impossível oferecer energia barata em escala. Essa diferença estrutural já se reflete na corrida da IA: enquanto os americanos restringem a exportação de chips avançados da Nvidia para a China, os chineses desenvolvem seus próprios processadores e alcançam níveis semelhantes de desempenho.
O problema é que o setor ficou tão gigantesco e trilionário que não existe mercado suficiente para rentabilizar tudo isso. Mais cedo ou mais tarde, essa bolha vai estourar. Se isso acontecer, o impacto será global, como na grande depressão de 1929, já que os Estados Unidos continuam sendo a maior economia do mundo e o maior mercado consumidor. Uma recessão profunda lá atingiria todos os países. Não por acaso, fundos tradicionais já estão se protegendo com grandes alocações em ouro, sinalizando desconfiança no sistema.
Essa situação se conecta com a decadência do mundo ocidental. O intelectual francês Emmanuel Todd, em seu livro Derrota do Ocidente, analisa como a guerra da Ucrânia expôs fragilidades estruturais do Ocidente. Ele mostra que a crise não é apenas econômica, mas também cultural e política. Nesse contexto, pensar em uma “tempestade perfeita” nos próximos anos não parece exagero. É preciso se preparar para um cenário em que a bolha da inteligência artificial, a disputa energética e a rivalidade geopolítica entre Estados Unidos e China podem convergir, trazendo instabilidade global antes de qualquer melhora.

