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O mito da substituição total e a necessidade de evolução humana

  • Foto do escritor: José Adauto Ribeiro da Cruz
    José Adauto Ribeiro da Cruz
  • há 2 horas
  • 6 min de leitura
— Imagem/Reprodução: E AGORA? A NOVA REALIDADE DO MUNDO com o AVANÇO DA "IA" [com KOBORI E NICOLELIS]

Ah, ela perguntou se existe a possibilidade das inteligências artificiais substituírem grande parte das profissões humanas, mas há também o perigo de outras profissões simplesmente desaparecerem, como já aconteceu em outros momentos da história.


Isso faz parte de um processo que vem desde a Revolução Industrial, ligado à automação. A inteligência artificial segue essa filosofia, sendo apenas mais uma etapa, não muito diferente do tear a vapor. A diferença é que agora chegamos a um ponto em que é possível automatizar de forma muito mais ampla, como já se vê em fábricas de automóveis.


Nos Estados Unidos, quando se fala em substituição, geralmente mencionam os trabalhos mais humildes. Mas recentemente alguém disse que até os CEOs poderiam ser substituídos, já que sistemas de IA mostraram ser melhores em tomar decisões do que eles. Isso gerou preocupação, porque muitos executivos consideram sua função uma arte, algo que treinaram a vida inteira. No entanto, se olharmos para o passado, um CEO ganhava em média apenas algumas vezes mais do que um trabalhador de chão de fábrica. Hoje, essa diferença explodiu, chegando a milhares de vezes. Isso mostra como houve uma distorção na valorização do trabalho.


Apesar do medo de que empregos desapareçam, acredito que haverá uma decepção: não será possível substituir ou automatizar tantos postos de trabalho quanto se alega. Afinal, se uma máquina alucina em decisões críticas, como na triagem de um pronto-socorro, isso pode custar vidas. O medo, por outro lado, funciona como ferramenta de consumo, incentivando as pessoas a se capacitarem para não serem substituídas. Mas há muita fantasia nesse discurso. Filosoficamente, penso que para as máquinas não nos substituírem como humanos, precisamos continuar evoluindo. Quando éramos adolescentes, já se falava que as máquinas chegariam ao nível da inteligência humana. Hoje vejo que não é que elas vão nos alcançar, mas sim que estão tentando nos trazer para o nível delas, achatando nossa capacidade.


Por isso, é essencial que os humanos continuem evoluindo. Nos Estados Unidos já existe um movimento chamado "human", que boicota empresas que demitem milhares de pessoas para automatizar sua produção. É quase uma guerrilha cultural, mas começa a ganhar espaço na imprensa e nas universidades. É paradoxal e poético: criamos uma criatura que agora ameaça engolir o criador, como já dizia a mitologia grega com Cronos devorando seus filhos. Estamos repetindo essa história.


Esse movimento cultural também aparece entre artistas e escritores. Em Hollywood houve uma greve de atores contra o uso de suas imagens por inteligência artificial sem consentimento. Na Europa, pintores e músicos processaram empresas que usavam obras famosas para treinar sistemas e vender reproduções sem pagar nada aos autores. Isso mostra que já existe resistência. Além disso, há cláusulas em termos de uso de ferramentas de IA que dão às empresas o direito sobre ideias geradas pelos usuários, o que levanta debates sobre propriedade intelectual.


Alguns pensadores chamam os grandes grupos que controlam essas tecnologias de "senhores tecnofeudais". O tecnofeudalismo é visto como uma nova forma de poder, em que a disputa já não é mais pelos meios de produção, pois estes foram automatizados, mas sim pelos dados e pela informação. Hoje todos nós nos tornamos uma pilha de dados para essas empresas, que acreditam que a vida humana pode ser reduzida a isso. É uma visão absurda, mas é assim que nos enxergam. E mesmo diante de crises globais, como a climática, esses grupos acreditam que terão meios de escapar, seja em bunkers ou até em naves para Marte. Há quem diga que seria melhor mandar todos eles para lá, pois o mundo ficaria mais razoável sem essa elite tecnocrática.


No fim, o grande paradoxo é que o sonho de todos os seres humanos é alcançar o padrão de vida de um cidadão médio de uma economia desenvolvida, mas simplesmente não há planeta suficiente para isso.


Para que toda a humanidade alcance o mesmo padrão de vida de um cidadão médio de uma economia desenvolvida seriam necessários vários planetas Terra. Essa elite dominante — nomes como Peter Thiel, Elon Musk, Sam Altman, Bill Gates e Jeff Bezos — sabe que não existe mundo para todos, e por isso busca garantir esse mundo apenas para si. O ideólogo que inspira muitos deles é Curtis Yarvin, um filósofo que defende a ideia de uma monarquia governada por um CEO de empresa de tecnologia. Ele não acredita na democracia nem na capacidade de raciocínio do ser humano médio, sustentando que apenas uma elite deveria decidir os rumos da sociedade.


Essa visão encontra eco em alguns neurocientistas que afirmam não existir livre arbítrio, reduzindo o cérebro humano a uma máquina programável. Mas essa tese ignora detalhes fundamentais: antes de qualquer movimento, o cérebro gera um programa motor que pode ser cancelado conscientemente. Isso mostra que existe sim a possibilidade de escolha, de interromper ou modificar uma ação. O discurso de que somos apenas máquinas serve a uma ideologia: máquinas são programáveis, controláveis e obedecem sem questionar, exatamente o que essa elite gostaria de aplicar aos seres humanos.


Esse processo de regimentação da mente humana não é novo. Desde o neolítico, quando surgiram excedentes de produção agrícola, líderes conseguiram mobilizar grandes grupos para construir obras monumentais, como as pirâmides do Egito. Centenas de milhares de pessoas trabalharam sem benefício direto, apenas pela crença de que acompanhariam o faraó ao céu. Esse modelo se perpetuou ao longo da história, chegando à Revolução Industrial e à produção em massa, transformando todos em peças de um grande exército do consumo.


Hoje, esse mecanismo se manifesta no consumismo moderno. Nos Estados Unidos, por exemplo, filas se formam para comprar o novo modelo de iPhone, mesmo que a mudança seja mínima. As indústrias criam produtos para quebrar rapidamente, forçando a compra de novos modelos. A propaganda incute a ideia de que é necessário estar sempre atualizado, sob pena de ficar para trás socialmente. Essa lógica não é diferente da Roma antiga, onde imperadores como Marco Aurélio mantinham a população anestesiada com centenas de dias de festas e espetáculos para evitar que olhassem para sua própria miséria.


A regimentação da mente humana é, portanto, uma estratégia de dominação que atravessa milênios. Hoje, com os meios de comunicação e as tecnologias digitais, ela se tornou ainda mais eficaz. Um simples lançamento de acessório pode ser amplificado em redes sociais e alcançar milhões de pessoas instantaneamente. Essa eficácia crescente traz riscos adicionais: estudos recentes mostram que, ao retroalimentar modelos de inteligência artificial com seus próprios outputs, eles começam a perder contato com a realidade, treinando-se em cima de alucinações. Já mais da metade do conteúdo da internet é gerado por sistemas de IA, e se essa proporção continuar crescendo, os modelos podem colapsar. O resultado seria um futuro sem futuro, um mundo em que a própria base da informação se dissolve.


O futuro que está sendo desenhado pelas inteligências artificiais é um futuro baseado no passado. Tudo que já aconteceu é usado para treinar os sistemas, que acabam projetando o amanhã como uma repetição do ontem. É o demônio de Laplace revisitado: a ideia de que, conhecendo todas as forças e partículas do universo, seria possível prever o futuro da humanidade. Mas isso é uma ilusão. O que esses sistemas fazem é tentar criar um futuro sem opção, um futuro sem novidade, apenas a repetição do que já foi. No entanto, nós só chegamos até aqui porque, em momentos críticos da história, nossos antepassados tiveram o insight de mudar a trajetória, de romper com o passado e criar algo novo. Se não fosse essa capacidade de invenção, não estaríamos aqui.


Essa lógica de futuro sem futuro é quase uma bomba autodestrutiva do ponto de vista cognitivo, mas acabou virando uma espécie de divindade moderna. Surge então a pergunta: existe algum limite para a inteligência humana? A ideia de que usamos apenas 10% do cérebro é uma bobagem. Também não é verdade que um cérebro maior necessariamente significa mais inteligência — baleias azuis têm muito mais neurônios que nós, e neandertais tinham cérebros maiores em volume, mas isso não os tornou superiores. Estudos recentes mostram até híbridos entre diferentes espécies humanas, como neandertais e denisovanos, o que reforça a complexidade da nossa evolução.


A questão não é apenas inteligência, mas criatividade. O cérebro humano não evoluiu para ver a realidade em sua totalidade, mas para extrair dela o que é necessário para otimizar a sobrevivência. Ele cria modelos simplificados que nos permitem agir e prosperar. Foram trezentos mil anos de desafios, momentos em que a humanidade quase desapareceu, mas sobreviveu graças à capacidade de adaptação e invenção. Nossos antepassados saíram da África e chegaram à Austrália a pé, cruzaram oceanos sem saber o que encontrariam, exploraram o desconhecido por impulso vital. Esse ímpeto de explorar, de ir além do horizonte, está inscrito no nosso inconsciente coletivo.


Por isso não faz sentido dizer que atingimos um platô de inteligência. A cada dia surgem novas situações que exigem novas soluções. O cérebro humano é movido pela curiosidade e pela busca do desconhecido. O risco real não está em um limite biológico, mas em terceirizar nossas decisões para sistemas que apenas repetem o passado. Se entregarmos o processo de decisão às máquinas, aí sim estaremos no limite — não da nossa inteligência, mas da nossa liberdade de criar o futuro.



 
 
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