Crise no PT: O Veto da Dosimetria e o Racha Interno
- José Adauto Ribeiro da Cruz

- há 23 horas
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Adauto Jornalismo* com o canal @AdautoRibeiroReporter e @vozcentraltv
O Partido dos Trabalhadores está rachando por dentro. Para entender como se chegou a esse ponto, é preciso olhar para os fatos verificáveis e o contexto político recente.
O PT, fundado por Lula há mais de 40 anos, sempre funcionou sob uma regra não escrita: apoiar o presidente incondicionalmente ou ficar de fora.
Essa estrutura garantiu cargos, ministérios e poder a quem se alinhava, enquanto isolava quem questionava. Durante décadas, o modelo funcionou sem grandes rupturas.
A crise começou em 8 de janeiro de 2026, quando Lula organizou uma cerimônia solene no Palácio do Planalto para marcar três anos dos ataques às sedes dos três poderes.
Convidou os presidentes da Câmara, do Senado e do STF, mas nenhum compareceu. As cadeiras ficaram vazias, e as ausências foram interpretadas como recado político: uma relação institucional fria, sem ruptura formal, mas longe da normalidade. Foi nesse evento esvaziado que Lula assinou o veto integral ao Projeto de Lei da dosimetria, transmitido ao vivo para todo o país.
O PL havia sido aprovado com maioria expressiva na Câmara e no Senado, incluindo votos da base aliada. O texto alterava critérios de cálculo de penas para crimes relacionados aos atos de 8 de janeiro. Lula vetou integralmente, exercendo um poder constitucional, mas assumindo um custo político elevado. Ao rejeitar um projeto negociado por meses e aprovado por ampla maioria, passou a mensagem de que sua decisão valia mais do que a de 513 deputados e 81 senadores.
A reação foi imediata. Parlamentares aliados criticaram duramente o veto. Paulinho da Força afirmou que Lula “rasgou e tocou fogo” na bandeira branca entregue pelo Congresso. Experidião Amin classificou a decisão como incoerente e prometeu apresentar um projeto ainda mais radical, defendendo anistia ampla e irrestrita. Rogério Marinho lembrou que Lula e seus aliados foram anistiados no passado e acusou o presidente de recusar até discutir clemência.
O conflito não ficou apenas nas palavras. Hoje existem 73 vetos presidenciais pendentes de votação no Congresso, dos quais 53 trancam completamente a pauta legislativa. Isso significa que nenhuma reforma ou lei relevante pode avançar enquanto os vetos não forem apreciados em sessão conjunta. O uso simultâneo de tantos vetos, embora legal, é inédito e funciona como arma política para travar o legislativo.
Nos bastidores, a matemática é clara: 17 senadores independentes somados a 24 da oposição formam 41 votos, número suficiente para desafiar o governo em votações decisivas. Além disso, R$ 11 bilhões em emendas parlamentares estão bloqueados, aumentando a pressão sobre congressistas. O cenário se torna ainda mais delicado com a disputa pelas 54 cadeiras do Senado em 2026, que pode redefinir o equilíbrio de forças.
O racha no PT, portanto, não é apenas interno. Ele reflete uma crise institucional mais ampla, marcada por vetos, bloqueios e tensões entre os poderes. O veto da dosimetria foi a gota d’água que expôs fragilidades no partido e abriu espaço para uma disputa política que promete se intensificar ao longo do ano.
Vetos, Orçamento e Senado: A Crise que Define 2026
O Partido dos Trabalhadores enfrenta uma crise institucional que expõe rachaduras internas e pressiona o governo Lula em 2026. A matemática política é clara: para derrubar um veto presidencial, são necessários 257 votos na Câmara e 41 no Senado.
A oposição já conta com 24 senadores e, se apenas 17 da base se somarem, o governo sofrerá sua primeira grande derrota legislativa do ano. Reportagens recentes apontam que senadores de partidos aliados, como MDB, PSD e União Brasil, sinalizam nos bastidores disposição para votar contra o Planalto.
O veto ao Projeto de Lei da dosimetria foi o estopim. A decisão presidencial contrariou um texto aprovado por ampla maioria no Congresso, incluindo a própria base governista. A reação foi imediata e dura, com parlamentares acusando Lula de rasgar acordos e radicalizar a relação institucional.
Mais grave ainda é que o veto não ficou isolado: hoje existem 73 vetos presidenciais pendentes de votação, dos quais 53 travam completamente a pauta legislativa. O uso simultâneo desse instrumento, embora constitucional, é inédito e interpretado como arma política.
O segundo ponto de tensão veio com o orçamento. Ao sancionar a lei orçamentária de 2026, Lula vetou R$ 400 milhões em emendas e bloqueou R$ 11 bilhões em recursos destinados ao Congresso.
Tecnicamente, o argumento foi fiscal, mas politicamente o gesto foi lido como retaliação direta. Emendas parlamentares são a principal moeda de troca para deputados e senadores em seus estados, e cortar esse poder em meio a uma crise é visto como pressão explícita.
O cenário se agrava com as eleições para o Senado. Este ano, 54 das 81 cadeiras estarão em disputa, duas por estado. Pesquisas internas mostram senadores da base empatados tecnicamente com adversários, quando antes venciam com folga.
O motivo é recorrente: cansaço da população com a guerra institucional. Parlamentares percebem que defender medidas impopulares pode custar a própria reeleição, e por isso sinalizam que votarão contra o governo em pautas sensíveis, não por ideologia, mas por autopreservação eleitoral.
Lula sabe que perder o Senado significa perder governabilidade. Com 41 cadeiras, a oposição teria maioria absoluta por oito anos, capaz de derrubar vetos, rejeitar indicações ao STF, aprovar CPIs e até discutir impedimentos de ministros.
A saída de aliados como Ângelo Coronel, do PSD da Bahia, e a demissão de Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça reforçam a percepção de enfraquecimento. Outros nomes, como Gleisi Hoffmann e Rui Costa, devem deixar o governo para disputar eleições, enquanto Fernando Haddad é pressionado a concorrer ao Senado por São Paulo.
A pergunta inevitável é se estamos diante de um golpe. A resposta técnica é não. Golpe significa ruptura da ordem constitucional, e até agora Lula tem usado instrumentos previstos na Constituição: vetos, contingenciamentos e medidas provisórias.
O problema não é a legalidade, mas a escala e o timing. Quando se usa 73 vetos para travar o Congresso e se bloqueiam bilhões em emendas no momento de maior tensão, o risco não é ruptura imediata, mas erosão democrática. É o uso agressivo de mecanismos legais a ponto de comprometer o funcionamento normal do sistema.
O desfecho dependerá das próximas votações. Se o Congresso derrubar o veto da dosimetria, Lula sofrerá uma derrota simbólica devastadora e terá de renegociar sua base.
Se o veto for mantido, o governo respira, mas ao custo de mais concessões e liberação de recursos.
Em ambos os casos, a democracia segue funcionando, sob pressão extrema, mas funcionando, porque o resultado virá do voto, não de decreto, não de tanque, do voto.


