A Doutrina do Labirinto em Cuba e a Ressurreição da Guerra de Todo o Povo
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Adauto Jornalismo* com o canal @AdautoRibeiroReporter e @viesmilitar
Imagine desembarcar em uma ilha onde não existe retaguarda, não existe civil neutro e não existe território seguro, onde cada rua é uma armadilha, cada universidade é um quartel e cada cidadão é ao mesmo tempo trabalhador e combatente.
Isso não é ficção, isso é Cuba. Agora, diante do cerco econômico, da pressão diplomática e do fantasma de uma nova escalada geopolítica, Havana decidiu ressuscitar uma das doutrinas mais temidas do século XX, a guerra de todo o povo. Uma estratégia que não busca vencer batalhas, mas destruir a vontade do inimigo de continuar lutando.
Neste vídeo você vai entender como uma doutrina nascida nas estepes soviéticas, aperfeiçoada nas selvas do Vietnã e adaptada para as cidades e montanhas do Caribe, transforma um país inteiro em um labirinto letal. Por que Miguel Díaz-Canel está treinando civis, estudantes e bairros inteiros para a guerra? E por que essa estratégia não é apenas militar, mas psicológica, política e econômica? Prepare-se, porque aqui a guerra não começa no campo de batalha. Ela começa na mente de quem pensa em invadir.
A doutrina do labirinto, Cuba e a ressurreição da guerra de todo o povo. Diante do aumento das tensões diplomáticas e do endurecimento de sanções econômicas, o governo de Cuba decidiu retirar das prateleiras da Guerra Fria uma estratégia de sobrevivência extrema. Não se trata apenas de movimentar tanques ou aviões, mas de transformar cada cidadão, cada esquina e cada montanha da ilha em um obstáculo letal. É a chamada guerra de todo o povo.
O conceito não nasceu em Havana, mas sim nas estepes soviéticas durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha nazista invadiu a União Soviética em 1941. Joseph Stalin percebeu que o exército regular não bastaria. Ele convocou uma mobilização total. Operários, camponeses e estudantes foram integrados ao esforço de guerra. Essa ideia de resistência total atravessou décadas e oceanos. Foi adaptada com sucesso pelo Vietnã contra os Estados Unidos, onde ficou conhecida como Guerra Popular, e foi abraçada por Fidel Castro em Cuba a partir de 1959.
Na década de 1980, percebendo que a União Soviética não enviaria tropas para defender a ilha em caso de um ataque da era Ronald Reagan, Fidel Castro sistematizou a doutrina. A premissa é simples: se o inimigo desembarcar, ele não enfrentará apenas um exército de uniforme, mas uma nação inteira armada e organizada. A meta é tornar a ocupação tão longa e cara que a opinião pública e a economia do invasor forcem uma retirada.
Recentemente, a mídia estatal cubana passou a exibir imagens que remetem aos momentos mais tensos do século passado. O atual presidente Miguel Díaz-Canel Bermúdez tem sido visto frequentemente em campos de treinamento, supervisionando o que chama de resgate da preparação para a defesa. Os exercícios mais recentes, como os realizados no bairro de Alcerro, em Havana, mostram uma integração profunda entre a vida acadêmica e a militar. Estudantes deixam as salas de aula para aprender montagem e desmontagem de fuzis, manuseio de minas terrestres e táticas de tiro real. Civis comuns são organizados em estruturas de defesa local, garantindo que não haja zona segura para um ocupante.
A população é treinada não apenas para atirar, mas para manter a produção de alimentos e suprimentos sob condições de cerco total. A retomada dessa doutrina coincide com períodos de maior pressão externa. O governo cubano utiliza esses exercícios como uma mensagem direta a Washington. Segundo Díaz-Canel, a preparação é a única forma de evitar a guerra. Se o adversário calcular que o preço da invasão é alto demais em vidas e dólares, ele desistirá de atacar.
Diferente de um exército tradicional que busca proteger fronteiras, a guerra de todo o povo foca no desgaste. Para entender por que Cuba resgatou essa doutrina, é preciso olhar para o espelho do Vietnã. A vitória vietnamita contra os Estados Unidos na década de 1970 é o estudo de caso definitivo para a guerra de todo o povo. Embora os contextos geográficos sejam diferentes — as selvas densas do sudeste asiático contra as montanhas e cidades da ilha caribenha — a essência da estratégia permanece idêntica.
No Vietnã, o país foi dividido em pequenas células de resistência. Enquanto o exército regular combatia em algumas frentes, os camponeses plantavam arroz de dia e instalavam armadilhas ou atacavam comboios de noite. Em Cuba, a doutrina atual prevê exatamente isso. Se as forças armadas cubanas forem superadas tecnologicamente, a luta se fragmenta.
O invasor passa a enfrentar milhares de pequenas guerras, em vez de uma só.
Uma das maiores frustrações dos generais americanos no Vietnã era a dificuldade de distinguir quem era o combatente e quem era o civil. Ao armar a população e integrar milícias de tropas territoriais, Cuba elimina a linha de frente clara. Quando um exército invasor entra em uma cidade onde cada trabalhador de padaria ou estudante universitário sabe montar um fuzil e conhece o sistema de túneis local, o estresse psicológico sobre o soldado ocupante se torna insustentável.
A guerra de todo o povo não é vencida apenas no campo de tiro, mas na vontade política do invasor. O conflito no Vietnã se tornou tão longo e o número de caixões retornando para casa tão alto que o apoio interno nos Estados Unidos desmoronou. O governo cubano acredita que se conseguir demonstrar que uma invasão resultará em milhares de baixas e em uma ocupação que duraria décadas, o governo americano pensará duas vezes antes de iniciar qualquer ação.
Enquanto o Vietnã tinha fronteiras terrestres que permitiam o recebimento de suprimentos da China e da União Soviética pela trilha Ho Chi Minh, Cuba é uma ilha. Isso significa que a guerra de todo o povo cubana precisa ser muito mais autossuficiente. Por isso, os exercícios atuais de Miguel Díaz-Canel focam tanto na produção local de alimentos e na estocagem de munição, prevendo um cenário de bloqueio total por mar e ar.
Fidel Castro estudou minuciosamente as táticas do general vietnamita Vo Nguyen Giap, o arquiteto da vitória sobre a França e os Estados Unidos. Giap dizia que na guerra popular o exército e o povo são como o peixe e a água. Cuba tenta hoje garantir que a água esteja fervendo para qualquer visitante indesejado.


