CIÊNCIA — Desenvolvimento Cerebral ao Longo da Vida: Evidências de Pontos de Inflexão Estruturais
- José Adauto Ribeiro da Cruz

- há 2 horas
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Embora os avanços da neurociência e da medicina tenham elucidado diversos aspectos da anatomia e da fisiologia cerebral, o cérebro humano permanece um órgão de elevada complexidade, ainda marcado por lacunas significativas de conhecimento.
Pesquisas recentes, baseadas em neuroimagem, têm identificado momentos críticos de reorganização estrutural que configuram pontos de inflexão no desenvolvimento cerebral. Evidências sugerem que tais transições ocorrem aproximadamente aos 9, 32, 66 e 83 anos de idade.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Cambridge, utilizando imagens de ressonância magnética de cerca de quatro mil indivíduos, publicado na revista Nature Communications, propõe que o cérebro humano atravessa cinco fases distintas ao longo da vida, caracterizadas por quatro momentos de reorganização estrutural.

Essas transições apresentam implicações relevantes para funções cognitivas, memória, inteligência, traços de personalidade e regulação emocional.
Infância (0–9 anos)
Durante a infância, observa-se o período de maior plasticidade cerebral. Há expansão acelerada da substância cinzenta, associada ao processamento emocional e mnêmico, e da substância branca, relacionada à aprendizagem.
O cérebro estabelece inicialmente um número excessivo de conexões sinápticas, seguido por um processo de poda neural. Essa reorganização, embora necessária para a eficiência futura, reduz temporariamente a velocidade de processamento da informação.
Adolescência e Início da Idade Adulta (9–30 anos)
O primeiro ponto de inflexão ocorre na transição da infância para a adolescência. O cérebro passa por um processo de maturação e otimização, caracterizado pelo encurtamento das conexões neuronais, o que aumenta a eficiência da transmissão de informações.
Entre os 18 e 21 anos, indivíduos são considerados adultos do ponto de vista social, mas o desenvolvimento cerebral prossegue até aproximadamente os 32 anos, quando se consolida a estabilidade funcional.
Idade Adulta (32–65 anos)
Aos 32 anos, inicia-se o período mais prolongado de estabilidade neurocognitiva. As capacidades cognitivas e traços de personalidade tendem a se manter relativamente constantes.
Contudo, há declínio gradual da eficiência das conexões inter-regionais, possivelmente associado a fatores de estilo de vida, como estabelecimento profissional e familiar.
Envelhecimento Prematuro (≈66 anos)
O terceiro ponto de inflexão corresponde ao envelhecimento precoce. Nessa fase, observa-se degeneração acelerada da substância branca, com redução da conectividade funcional entre redes cerebrais.
Esse processo aumenta a vulnerabilidade a distúrbios neurodegenerativos e está correlacionado a maior incidência de comorbidades que afetam o sistema nervoso central.
Envelhecimento Tardio (≈83 anos)
O último ponto crítico ocorre no envelhecimento tardio. As conexões inter-regionais tornam-se substancialmente enfraquecidas, levando o cérebro a depender de circuitos restritos.
Essa redução da conectividade global compromete a comunicação entre áreas distintas e eleva o risco de demência e declínio cognitivo severo.
Considerações Finais
Os resultados reforçam a noção de que o desenvolvimento cerebral não é linear, mas marcado por fases de reorganização estrutural.
A identificação desses pontos de inflexão fornece subsídios para compreender vulnerabilidades específicas em diferentes etapas da vida, desde dificuldades de aprendizagem na infância até demências na senescência.
Como sintetizou o professor Duncan Astle, compreender tais momentos críticos é fundamental para antecipar e mitigar interrupções na conectividade cerebral ao longo do ciclo vital.


