CONEXÃO PCC — Capitão da PM de São Paulo em esquema de evasão de divisas
- José Adauto Ribeiro da Cruz

- 6 de set. de 2025
- 6 min de leitura
Um dos principais operadores do esquema de evasão de divisas e lavagem de dinheiro no mercado do câmbio comandado pelo empresário chinês Tao Li seria o capitão da Polícia Militar de São Paulo, Diogo Costa Cangerana, de acordo com investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF).
Ele teria atuado na organização criminosa entre 2021 e 2024, quando trabalhou como segurança dos governadores Tarcísio de Freitas e Rodrigo Garcia. Cangerana arrumava clientes interessados em blindar o patrimônio e lavar dinheiro com criptoativos.

Também estaria envolvido na cooptação de gerentes de bancos e no comércio ilegal de ouro para Dubai, de acordo com a PF. Com ele foi achado uma “lista de propinas”.
Cangerana teria atuado em três das fases do esquema criminoso. Diz a PF: “Além de exercer importante papel nas fases 1 e 2, DIOGO parece ter participação na fase 4, fornecendo endereço na blockchain de uso pessoal e realizando transações com USDT (uma criptomoeda)”.
O Estadão procurou o capitão em seu local atual de trabalho, a Diretoria de Logística da PM. Deixou recado, mas ele não respondeu. À Justiça, o policial disse ser inocente.
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A Assessoria do governador Tarcísio informou que a segurança do governador é atribuição da Casa Militar.
O policial citado na reportagem ingressou na unidade em 2012 e, em setembro de 2024, foi transferido pela atual gestão para o 13º BPM.
Durante esse período, ele não exerceu funções de assessoria ou ajudância de ordens às autoridades, limitando-se a atividades de rotina da PM, assim como outros 347 policiais designados às autoridades conforme escala de trabalho.
O Estadão também procurou o ex-governador Garcia, mas ele não respondeu á reportagem. O policial saiu do trabalho no Bandeirantes dois meses antes da operação da PF.
Na primeira fase do esquema, de acordo com a PF, os doleiros criam ou adquirem empresas de fachada para receber recursos em reais, mediante depósitos ou transferências dos clientes interessados na evasão de divisas.
A fase seguinte seria o direcionamento desses valores para pessoas jurídicas ou físicas que fazem os contratos de câmbio sob a modalidade de aquisição de mercadoria no exterior por meio de criptoativos, como o USDT.
Com o USDT na mão, ocorre então a quarta fase. Nela, segundo a PF, os doleiros fornecem contrapartidas aos clientes, no Brasil ou no exterior. Os USDT são transferidos para os endereços indicados pelos clientes sem que haja controle estatal ou tributação.
A PF interceptou diálogos entre Diogo e Li. O primeiro aconteceu em 30 de março de 2021, quando agendam um encontro às 9h30.
No mesmo dia, por volta das 15 horas, Li envia planilha para o capitão para tratar de um negócio. A planilha traz custo de criação e manutenção de empresas usadas no esquema.
Havia uma lista de propinas na planilha. “Chama atenção a contabilização dos custos mensais da manutenção dos CNPJs em que Tao Li prevê pagamentos para ‘laranjas’,’ gerente de banco’ e ‘polícia’”, afirmou o delegado Guilherme Alves Siqueira, responsável pelas investigações.
Para a “polícia”, estavam reservados por mês “2 mil” – não se sabe se são mil ou milhões –, 3 mil para gerente de banco e 2 mil para laranja. “Fica evidente que os envolvidos estruturam o negócio sob bases ilícitas, mantendo contas bancárias de empresas inexistentes, em nome de interpostas pessoas, cujas movimentações milionárias dependem do pagamento de propina a gerentes de bancos e policiais”, afirma a PF.
Tao Li reclamou ainda com Cangerana sobre a dificuldade de criar empresas de prateleira, pois era preciso pagar as contas das companhias durante, pelo menos, seis meses, pois elas não podiam “morrer muito rápido”. “Não é bom para nós... Nós temos um custo para arrumar empresa, arrumar escritório”. Um dos encontros do capitão com o empresário foi em São Bernardo do Campo, com um advogado que assessorou o grupo.
Conta e suborno de gerentes
Cangerana ainda intermediou contatos de Tao Li com bancos, com o propósito, segundo a PF, de obter facilidades em contratos de câmbio que seriam fechados por meio da Swapfy, uma empresa de fachada do grupo.
Li fez então pagamento para o capitão, que disse ao empresário que conseguia ajudá-lo a abrir conta em um grande banco. Disse que o gerente cobrava suborno para a manutenção da conta com “grande limite de movimentação”. “Cobra 5 mil para abrir e 5 mil/mês... Consegue movimentar 2mm/dia... ou mais”, afirmou o capitão.
De acordo com documentos apreendidos pela PF, ambos deram andamento à abertura de contas em nome de laranjas. Li pediu a Diogo que abrisse duas contas num banco e afirmou que ia mandar os documentos, como o comprovante de residência de um “sócio”. “Ele é só laranja (...) mesmo, não tem nada”, disse o empresário em mensagem ao capitão.
Pouco depois, os diálogos entre os dois registram a abertura de mais duas contas no mesmo banco e duas outras em outro grande banco brasileiro. Todas com limite diário de R$ 2 milhões.
No caso do segundo banco, havia um problema: seu sistema de controles. “Defender a conta, o gerente defende, mas tem de passar pela área de cadastro primeiro”, disse o capitão ao empresário. Para a PF, a relação de Diogo era com o gerente do banco, que ele pretendia corromper.
Além de clientes, o capitão também forneceria segurança para o empresário a fim de cuidar do serviço de coleta de dinheiro com os comerciantes clientes de Tao Li. Só pelo serviço de abrir essas contas, Cangerana recebeu R$ 18 mil. O pagamento total seria de R$ 120 mil, que ele receberia por meio da Canbru Intermediações.
O capitão teria trabalhado ainda com contas correntes em outros três bancos do varejo para empresas de fachada. Em outra leva de contas, ele afirma ter pagado mais R$ 10 mil ao gerente de um dos bancos.
Tao Li cobrava o capitão para que cada conta tivesse limite de transação diária de R$ 2 milhões, pois se o limite fosse menor, não haveria como fazer as remessas.
Além de contas bancárias, o capitão também providenciava CNPJs para o empresário chinês. Foi assim quando apresentou três empresas a Tao Li. “Vou mandar para você dar uma pesquisada”, escreveu o policial.
Uma empresa de 2017 custava R$ 40 mil e outra, aberta em 2007, saía por R$ 45 mil, já contando com alterações de nomes.
Diogo então faz uma advertência ao empresário: “Preciso dos RGs das pessoas. Não adianta pegar moleque de 19 anos (...) Mas o contrato social já está certo, só precisa fazer a alteração”.
O policial civil Cyllas Elia, presidente da fintech 2 Go Bank, que foi alvo de operação dfa PF Foto: Reprodução / Estadão
Para tanto, ele seria ajudado por um operador de USDT. Diogo pagava parte dos serviços do esquema com esse tipo de criptomoeda. Uma das vezes, ele consultou o empresário para comprar R$ 85 mil em USDT com dinheiro vivo.
Os dois trocam mensagens ainda mostrando que estavam em “projeto” com o 2GoBank, fintech montada pelo policial civil Cyllas Elia com a ajuda de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Trata-se de uma relação que começou em 2021. O 2GoBank foi uma das instituições de pagamento delatadas pelo empresário Antonio Vinícius Gritzbach, assassinado em 8 de novembro de 2024 no aeroporto de Guarulhos por policiais militares contratados por narcotraficantes do PCC.
Ouro para Dubai
Por fim, os federais encontraram indícios de remessa ilegal de ouro em mensagens de um grupo de WhatsApp mantido pelos investigados. Os federais identificaram o possível fornecedor, que mantinha contatos em Brasília e em Dubai.
Barras de ouro que o esquema investigado pela Operação Tai Pan, da Polícia Federal, pretendia enviar para Dubai. Li escreveu: “Só pra finalizar porque ele tem o ouro lá com os papéis até 12 toneladas e já aceitou a forma de pagamento em cash, crypto ou bank”. A primeira remessa de ouro seria colocada em uma Ferrari enviada a Dubai.
* With AI Copilot support provided by Microsoft
REFERÊNCIAS:




