Lagoinha S/A — Entre Fé, Franquia e Escândalos
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Adauto Jornalismo* com o canal @AdautoRibeiroReporter e @DCMTVlive
Esse caso envolvendo Fabiano Zetel e a unidade da Lagoinha Belvedere mostra bem como funciona a lógica de abertura de filiais em grandes denominações evangélicas no Brasil.
Normalmente, cada igreja local tem autonomia administrativa, jurídica e financeira, mesmo que carregue o nome da matriz.
Isso significa que, na prática, qualquer pastor ou empresário com influência e respaldo pode abrir uma filial usando a marca já consolidada, o que dá credibilidade imediata.
No caso citado, os repasses milionários para a Lagoinha Belvedere ocorreram em um intervalo curto de tempo, e a própria Lagoinha Global afirmou em nota que não tinha conhecimento das transações, reforçando que cada unidade é responsável por sua gestão.
Esse modelo descentralizado facilita a expansão, mas também abre brechas para irregularidades, já que o controle é limitado e depende da liderança local.
É comum que figuras com poder econômico ou político se aproximem dessas igrejas, tanto para ganhar legitimidade quanto para usar a estrutura como vitrine.
Quando há vínculos com grupos ideológicos fortes — como setores ligados ao bolsonarismo — a entrada fica ainda mais facilitada, pois há alinhamento de discurso e apoio de bancadas evangélicas no Congresso.
Na prática, isso cria um ambiente propício para que pessoas mal-intencionadas usem a marca de uma igreja conhecida para atrair fiéis e movimentar recursos, sem que a matriz consiga monitorar de perto.
O resultado é que, quando surgem escândalos, a denominação maior se defende dizendo que não tem responsabilidade direta, mas a imagem pública acaba sendo atingida.
O que você trouxe toca num ponto central: a diferença entre igrejas históricas, que exigem formação teológica formal, e o modelo das chamadas “terceira onda” — neopentecostais e algumas pentecostais pós-modernas — onde muitas vezes não há exigência de seminário ou credenciais acadêmicas.
Isso abre espaço para que pessoas com perfil de empresário ou comunicador assumam o título de pastor sem passar por uma formação teológica estruturada.
No caso da Lagoinha, o destaque sempre foi o ministério de louvor e o mercado gospel, que movimenta muito dinheiro e atrai figuras públicas.
Esse ambiente cria uma vitrine poderosa: quem se associa à marca “Lagoinha” ganha legitimidade imediata, mesmo sem histórico pastoral sólido.
É aí que entram os riscos: quando alguém com poder econômico ou conexões políticas abre uma filial, a denominação maior pode alegar que cada unidade tem autonomia, mas o nome e a imagem da igreja ficam vinculados.
Esse modelo descentralizado facilita a expansão rápida, mas também pode ser usado para dar aparência de legalidade a negócios suspeitos.
A abertura de uma filial com o selo de uma grande igreja funciona quase como uma franquia: você pega emprestado a credibilidade da marca, atrai fiéis e movimenta recursos.
Se houver irregularidades, a matriz se defende dizendo que não tinha controle direto, mas a reputação coletiva sofre.
O que você chamou de “manual para dar aparência de legalidade” é justamente isso: usar a estrutura religiosa para blindar operações financeiras, captar recursos e, em alguns casos, lavar dinheiro.
Quando somamos a isso a proximidade com bancadas evangélicas e figuras políticas, o sistema ganha ainda mais proteção.
Você tocou num ponto muito importante: a diferença entre denominações históricas e igrejas que operam quase como marcas privadas.
No caso da Lagoinha, ela não funciona como a Assembleia de Deus, que é uma denominação ampla, com federação e ministérios diversos, sem “dono” único.
A Lagoinha, ao contrário, tem uma estrutura centralizada e uma marca registrada, administrada como uma espécie de franquia. Isso significa que abrir uma filial da Lagoinha é parecido com abrir um McDonald’s: você não cria uma igreja nova, você compra ou recebe a licença de usar um nome que já tem peso e reconhecimento.
Esse modelo gera duas consequências:
• Expansão rápida: hoje são mais de 600 unidades no Brasil e no exterior, todas com a chancela da “Lagoinha Global”.
• Vulnerabilidade: quem assume uma filial ganha credibilidade imediata, mas se houver irregularidades, a matriz pode alegar que cada unidade tem autonomia financeira e administrativa. Isso cria uma zona cinzenta entre responsabilidade institucional e responsabilidade individual.
A crítica do pastor Ed René Kivitz sobre a “comoditização da fé” se encaixa bem aqui: a fé vira uma commodity, algo que pode ser replicado em escala, supervisionado por executivos e CEOs, e usado como vitrine para arrecadação.
O caso do Felipe Valadão, cunhado de André, mostra como até dentro da família há disputas judiciais pelo uso da marca.
Ele abriu uma Lagoinha em Niterói usando o sobrenome Valadão e o nome da igreja, mas André afirma que foi sem autorização.
A briga judicial expôs justamente essa lógica de franquia e levantou suspeitas sobre como a marca é negociada.
No fundo, o fiel é atraído por dois fatores:
• Fé: a devoção a Jesus, que é genuína.
• Status: a ideia de que não está indo a uma igreja qualquer, mas sim à “Lagoinha”, que carrega prestígio no meio gospel.
Esse modelo, que mistura espiritualidade com lógica empresarial, explica por que figuras com poder econômico ou político se aproximam da Lagoinha. É uma marca forte, com apelo popular e legitimidade imediata.
Mas também é um sistema que, se não for bem fiscalizado, pode ser usado para dar aparência de legalidade a negócios suspeitos.
O que você trouxe mostra bem como o modelo da Lagoinha Global acabou se transformando em algo muito próximo de uma franquia empresarial, com todos os problemas que isso acarreta.
A igreja tem cultos, pastores, dízimos e ofertas, mas o grande diferencial sempre foi o mercado gospel — impulsionado por nomes como Ana Paula Valadão — que movimenta muito dinheiro e dá visibilidade.
Com mais de 600 unidades no Brasil e no exterior, a Lagoinha não chega ao tamanho da Assembleia de Deus, mas funciona de forma diferente: enquanto a Assembleia é uma denominação histórica, com federação e ministérios diversos, sem “dono” único, a Lagoinha tem uma estrutura centralizada, administrada como marca privada.
É como abrir um McDonald’s: você não cria uma igreja nova, você usa o selo “Lagoinha” para atrair fiéis e ganhar status.
Esse sistema gera polêmicas. Houve casos de taxa de batismo, que André Valadão negou ter autorizado, mas que levantou suspeitas de prática arrecadatória abusiva.
Outro exemplo foi a criação de áreas VIP nos cultos, com ingressos de até R$ 10 mil, garçom, hambúrguer gourmet e ambiente climatizado, algo que transformava a experiência religiosa em espetáculo. A repercussão foi tão negativa que a prática foi encerrada.
Além disso, eventos gigantescos em estádios como o do Corinthians e do Palmeiras receberam subsídios da Prefeitura de São Paulo via leis de incentivo à cultura, mostrando como a igreja conseguiu acessar recursos públicos para financiar shows gospel.
No meio de tanto dinheiro, surgiram disputas internas: André Valadão de um lado, Ana Paula Valadão de outro, Felipe Valadão (cunhado) abrindo igreja com o nome da família sem autorização, e até Silas Malafaia entrando na briga para apoiar Felipe contra André. Isso expôs ainda mais o caráter empresarial da marca, com disputas judiciais pela propriedade do nome Lagoinha e acusações de exclusão de membros da própria família.
O caso da Lagoinha Alphaville, voltada para a elite, com dívidas milionárias, mostra que o modelo de expansão acelerada também gera riscos financeiros.
No fim, o que deveria ser uma rede de igrejas se tornou um sistema de franquias religiosas, onde a fé é usada como commodity e a disputa não é apenas espiritual, mas principalmente por arrecadação e poder.

