O fim do chavismo e a nova doutrina de Trump para a América do Sul
- José Adauto Ribeiro da Cruz

- 26 de jan.
- 5 min de leitura
Adauto Jornalismo* com o canal @AdautoRibeiroReporter com @canalmilitarizandoomundo
Donald Trump decretou o fim do Foro de São Paulo com sua nova doutrina, afastando de vez a ideia de uma América do Sul unificada nos moldes da antiga União Soviética.
Essa concepção, considerada ultrapassada, ainda influencia Lula, mas o Brasil precisa buscar seus próprios interesses, fortalecer sua defesa e ampliar parcerias internacionais.
A queda de Nicolás Maduro marcou o encerramento de um dos ciclos políticos mais longos e controversos da história recente da América do Sul. Após anos de isolamento internacional, colapso econômico, denúncias de violações sistemáticas de direitos humanos e acusações de envolvimento do Estado com o narcotráfico, o regime chavista entrou em colapso no início de dois mil e vinte e seis.
A saída de Maduro não ocorreu de forma isolada, mas como resultado de pressões internas e externas, especialmente vindas dos Estados Unidos, que passaram a tratar a permanência do chavismo como risco estratégico para a segurança hemisférica.
O enfraquecimento do regime ficou evidente quando setores das forças armadas, historicamente o principal pilar de sustentação, aceitaram uma transição negociada diante do esgotamento político e econômico.
Nesse contexto, Delc Rodríguez assumiu o governo de forma interina, com o compromisso de reorganizar o Estado e evitar um colapso institucional total.
Um dos primeiros movimentos do novo governo foi a substituição de comandantes militares responsáveis por zonas estratégicas da Venezuela. Essa mudança atingiu diretamente estruturas que durante anos funcionaram como braços armados do regime chavista, garantindo controle territorial, repressão interna e fidelidade política. A troca foi interpretada como o sinal mais claro de que o ciclo chavista havia chegado ao fim.
Ao redesenhar a cadeia de comando militar, o governo interino buscou enfraquecer redes de lealdade construídas ao longo de mais de duas décadas e sinalizar ao exterior, especialmente a Washington, que a Venezuela estava disposta a romper com o modelo de confrontação permanente que marcou os anos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro.
A reorganização também atingiu áreas sensíveis como inteligência, contrainteligência, guarda presidencial e regiões de fronteira, consideradas estratégicas tanto para o combate ao narcotráfico quanto para o controle de rotas ilegais.
Internamente, o discurso oficial passou a enfatizar estabilização, reordenação institucional e reconstrução gradual do país, enquanto nos bastidores avançavam negociações para aliviar sanções e retomar canais diplomáticos com potências ocidentais.
No plano internacional, a queda de Maduro e o desmonte do regime chavista ocorreram em paralelo a uma mudança explícita na postura dos Estados Unidos em relação à América do Sul.
O governo de Donald Trump passou a afirmar abertamente que considera o continente parte vital de sua estratégia de segurança nacional e deixou claro que tratará como ameaça qualquer iniciativa que busque reduzir a influência americana na região.
Documentos estratégicos e declarações oficiais passaram a defender a restauração da supremacia militar dos Estados Unidos no hemisfério, resgatando princípios históricos como a Doutrina Monroe em nova roupagem.
A Venezuela tornou-se o exemplo central dessa política. Segundo Washington, o colapso do chavismo demonstraria que os Estados Unidos não mais tolerarão governos alinhados a interesses considerados hostis, nem a presença de atores externos que disputem espaço geopolítico no continente.
Essa postura teve reflexos diretos na relação com outros países da América do Sul, incluindo o Brasil. O governo Trump passou a enviar sinais cada vez mais duros ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, deixando claro que qualquer tentativa de relativizar ou reduzir o papel dos Estados Unidos na região será encarada como afronta estratégica.
A análise desse novo cenário indica que a queda do regime chavista não representa apenas uma mudança interna na Venezuela, mas um marco geopolítico mais amplo.
A substituição de comandantes militares simboliza o fim de uma era de alinhamento ideológico fechado e inaugura um período de realinhamento forçado, no qual governos sul-americanos passam a operar sob maior pressão externa.
Ao mesmo tempo, a estratégia americana aponta para um continente cada vez mais vigiado e condicionado por interesses de segurança definidos em Washington. Para a Venezuela, o desafio será reconstruir instituições fragilizadas sem se tornar apenas um satélite político.
Para o Brasil e seus vizinhos, o novo contexto impõe escolhas difíceis entre autonomia diplomática e acomodação a uma ordem regional mais rígida.
O fim do chavismo não encerra as tensões na América do Sul, mas inaugura uma fase de disputas mais diretas, onde poder militar, influência política e alinhamentos estratégicos voltam ao centro do tabuleiro continental.
Para Washington, o colapso do chavismo confirma a visão de que a América do Sul não pode ser tratada como uma zona neutra ou distante das prioridades estratégicas dos Estados Unidos.
Ao contrário, passa a ser vista como um espaço que precisa ser controlado, monitorado e politicamente influenciado para evitar o avanço de projetos ideológicos considerados hostis.
Nesse contexto, Donald Trump tem demonstrado crescente desconfiança em relação ao Foro de São Paulo, organização que reúne partidos e movimentos de esquerda da América Latina e que historicamente defende agendas associadas ao socialismo e ao anti-imperialismo.
Para o governo Trump, o fórum não é apenas um espaço de debate político, mas um núcleo articulador de projetos que abriram caminho para experiências como o chavismo na Venezuela e facilitaram a aproximação de governos sul-americanos com China e Rússia.
Na visão americana, essa articulação ideológica funciona como porta de entrada para interesses extrarregionais no continente, seja por meio de investimentos estratégicos, acordos militares ou influência política indireta.
A associação entre governos de esquerda e a ampliação da presença chinesa e russa é vista como ameaça direta à supremacia dos Estados Unidos no hemisfério.
Por isso, o discurso de Trump deixa cada vez menos espaço para ambiguidade. Qualquer governo que incentive esse tipo de alinhamento passa a ser tratado como problema estratégico.
Nesse cenário, o Brasil se encontra em posição delicada. Lula mantém vínculos históricos com o Foro de São Paulo e lideranças de esquerda, ao mesmo tempo em que governa um país profundamente ligado aos Estados Unidos em termos econômicos, comerciais e diplomáticos.
A tentativa de manter uma política externa de equilíbrio e multipolaridade entra em choque com a visão de Trump, que interpreta esse posicionamento como hesitação perigosa. A mensagem enviada é direta: não haverá tolerância com projetos ideológicos que facilitem a expansão da influência chinesa e russa na América do Sul.
A queda do regime venezuelano surge, assim, como aviso aos demais países da região. Lula passa a ocupar um espaço cada vez mais desconfortável entre o alinhamento ideológico regional e a realidade de um continente que Washington voltou a tratar como área de influência direta e estratégica.

