O interesse de Trump por Fernando de Noronha reflete uma estratégia de reafirmação de poder dos Estados Unidos na América do Sul
- José Adauto Ribeiro da Cruz

- há 4 dias
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Adauto Jornalismo* com o canal @AdautoRibeiroReporter com @canalmilitarizandoomundo
Os interesses territoriais de Donald Trump também chegam ao Brasil, segundo informações de um site de defesa especializado brasileiro, que aponta ilhas e bases militares brasileiras sob a mira dos Estados Unidos.
O objetivo seria aumentar ainda mais o controle sobre a costa marítima brasileira e ampliar a interceptação e patrulha de embarcações. Lula está calado, mas sabe que o Brasil também é alvo de Trump, que não demonstra preocupação com aliados.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem interesse pela ilha brasileira de Fernando de Noronha, localizada no Nordeste do Brasil. Essa ilha, conhecida por sua beleza natural e importância ambiental, tem sido apontada como um ponto estratégico no Atlântico Sul.
As articulações recentes dos Estados Unidos para obter acesso irrestrito às suas instalações aeroportuárias e portuárias revelam um padrão mais amplo de ações norte-americanas na América Latina.
Fernando de Noronha é um arquipélago vulcânico a cerca de 350 km da costa pernambucana, composto por 21 ilhas e ilhotas, com uma área total de aproximadamente 26 km².
Declarado patrimônio mundial pela UNESCO em 2001, o local é gerenciado como parque nacional marinho, com restrições rigorosas ao turismo para preservar sua biodiversidade única, incluindo tartarugas marinhas, golfinhos e recifes de coral.
No entanto, sua posição geográfica privilegiada, equidistante entre a América do Sul, a África e a Europa, o torna um ativo estratégico para monitoramento de rotas marítimas e aéreas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1942 e 1945, os Estados Unidos investiram na construção de pistas de pouso e sistemas de comunicação na ilha, transformando-a em uma base de apoio para operações aliadas contra submarinos nazistas no Atlântico.
Essa presença deixou legados infraestruturais, como o aeroporto atual, mas o controle sempre reverteu ao Brasil após o conflito.
Nos últimos anos, especialmente desde o início do segundo mandato de Trump em 2025, os Estados Unidos têm pressionado por um direito histórico sobre Fernando de Noronha e a base aérea de Natal, no Rio Grande do Norte.
Diplomatas ligados ao círculo republicano argumentam que os investimentos da época da guerra justificam uma contrapartida atual, permitindo acesso irrestrito ao aeroporto de Fernando de Noronha (código SBFN) e à base em Natal.
Essa reivindicação ecoa discursos de Trump sobre outros territórios, como o Canal do Panamá ou a Groenlândia, onde ele alega compensações por contribuições passadas dos Estados Unidos.
Em maio de 2025, relatórios indicaram que representantes norte-americanos iniciaram negociações informais com interlocutores brasileiros, enfatizando a importância estratégica dessas áreas para o controle do Atlântico Sul em um contexto de rivalidades globais, incluindo China e Rússia.
O governo brasileiro rejeitou essas demandas, priorizando a soberania nacional, o que gerou tensões diplomáticas e econômicas, como tarifas impostas sobre produtos brasileiros em retaliação.
Essa ambição por Fernando de Noronha não é isolada. Ela se insere em um padrão de ações dos Estados Unidos na América Latina, guiadas pela aplicação renovada da Doutrina Monroe, formulada em 1823 pelo presidente James Monroe.
Originalmente, a doutrina visava impedir intervenções europeias nas Américas, afirmando que o hemisfério ocidental era uma esfera de influência dos Estados Unidos.
Ao longo do século XX, evoluiu para justificar intervenções militares e políticas, como a invasão do Panamá em 1989 ou o apoio a golpes de Estado no Chile em 1973 e na Guatemala em 1954.
No segundo mandato de Trump, a doutrina ganhou um “corolário Trump”, explicitado na estratégia de segurança nacional de 2025, que reafirma a preeminência dos Estados Unidos no hemisfério, combatendo influências extraemisféricas, como a chinesa, e priorizando o controle de recursos e rotas estratégicas.
Esse corolário justifica ações mais assertivas, como a luta contra o narcotráfico e a migração irregular, mas críticos o veem como uma forma de neoimperialismo, permitindo intervenções unilaterais para alinhar governos regionais aos interesses norte-americanos.
Os avanços recentes dos Estados Unidos na América do Sul ilustram essa abordagem. Em janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram uma operação militar audaciosa na Venezuela, capturando Nicolás Maduro e sua esposa em uma incursão noturna em Caracas, acompanhada de ataques aéreos a instalações militares.
Trump anunciou que os Estados Unidos administrariam temporariamente o país até uma transição segura, com foco na reconstrução da infraestrutura petrolífera e na venda de até 50 milhões de barris de óleo para os Estados Unidos.
Essa ação, justificada como combate ao narcoterrorismo, resultou em dezenas de mortes e foi condenada internacionalmente como violação da soberania venezuelana e do direito internacional.
A invasão abriu precedentes para ameaças contra outros vizinhos. Na Colômbia, Trump acusou o presidente Gustavo Petro de envolvimento com o tráfico de cocaína, chamando-o de “homem doente” e afirmando que uma operação militar seria adequada.
No México, Trump ameaçou ataques terrestres contra cartéis de drogas, alegando que eles controlam o país, apesar dos esforços da presidente Cláudia Shinba em aumentar a cooperação bilateral em segurança.
Essas ameaças incluíram o envio de forças especiais sem autorização mexicana, o que violaria a soberania e poderia afetar o comércio bilateral.
No Brasil, desde 2021, os Estados Unidos buscam maior controle sobre bases militares, incluindo propostas de acesso a instalações em Acre, Manaus e, especificamente, Fernando de Noronha.
Embora o Brasil tenha recusado demandas mais invasivas, como exercícios conjuntos cancelados em agosto de 2025, a pressão continua por meio de sanções econômicas e negociações sobre tarifas.
O corolário Trump enquadra essas articulações como necessárias para a segurança hemisférica, mas o governo brasileiro as vê como ameaças à autonomia, especialmente após a suspensão de operações militares conjuntas e a imposição de tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros em retaliação a questões internas.
O interesse de Trump por Fernando de Noronha reflete uma estratégia de reafirmação de poder dos Estados Unidos na América do Sul, onde recursos naturais, rotas comerciais e influência geopolítica estão em jogo.
Historicamente, a Doutrina Monroe serviu para proteger interesses econômicos, mas sua versão trumpista parece priorizar ganhos imediatos, como o acesso ao petróleo venezuelano ou a bases estratégicas, em detrimento de parcerias igualitárias.
A invasão da Venezuela demonstra que ameaças podem se tornar ações reais, gerando instabilidade regional e migrações em massa.
Para o Brasil, ceder a essas pressões poderia comprometer sua soberania, especialmente em um arquipélago vital para o ecoturismo e a defesa nacional.
No entanto, a resistência diplomática de Lula, que já derrubou tarifas punitivas, sugere que negociações firmes podem prevalecer, fortalecendo alianças com blocos como o BRICS para contrabalançar o unilateralismo norte-americano.
Em última instância, essa dinâmica expõe as vulnerabilidades da América Latina frente a um vizinho poderoso, mas também destaca a necessidade de unidade regional para preservar a autonomia em um mundo multipolar.

