Brasil entre Gigantes: Aposta de Lula no Tabuleiro Global
- José Adauto Ribeiro da Cruz

- há 24 horas
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Adauto Jornalismo* com o canal @AdautoRibeiroReporter com @canalmilitarizandoomundo
Lula dobra a aposta contra os Estados Unidos e duplica a venda de petróleo para a China, reúne-se com o premier russo no Brasil e manda recado direto a Donald Trump, dando indícios de que deseja tornar o Brasil a polícia da América do Sul.
Mas até onde isso pode dar certo? Em um mundo cada vez mais polarizado, onde as superpotências disputam influência como em uma partida de xadrez global, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva acaba de fazer uma jogada que pode mudar o tabuleiro inteiro, ignorando completamente a doutrina anunciada pelos Estados Unidos no final de 2025, que exige o alinhamento total dos países da América do Sul sob a esfera de influência americana. Lula optou por um caminho oposto e arriscado.
Recebeu o primeiro-ministro russo Mikhail Michustin em Brasília, emitiu uma declaração conjunta que soa como um tapa na cara de Donald Trump e ainda impulsionou as exportações de petróleo para a China, vista por muitos como a nova potência dominante ao lado da Rússia.
A questão é se o Brasil, com suas forças armadas ainda atreladas aos interesses americanos e sem capacidade militar para sustentar tal independência, está preparado para as repercussões. No final de 2025, durante seu segundo mandato, Donald Trump anunciou o que analistas batizaram de “Corolário Trump”, uma atualização da histórica Doutrina Monroe. Proclamada em 1823 pelo presidente James Monroe, a doutrina declarava a América Latina como zona de influência exclusiva dos Estados Unidos, proibindo intervenções europeias.
Ao longo dos séculos, evoluiu para justificar invasões, golpes e embargos em nome da segurança hemisférica. Trump, fiel ao seu estilo “America First”, atualizou essa visão em sua estratégia de segurança nacional de dezembro de 2025. O documento enfatiza a necessidade de alinhar todos os países sul-americanos aos interesses americanos, combatendo o que Washington chama de influências malignas da China e da Rússia. Isso inclui medidas contra migrações irregulares, narcotráfico e, principalmente, o controle de recursos estratégicos como o petróleo.
Um exemplo concreto dessa doutrina em ação foi a operação militar dos Estados Unidos na Venezuela em meados de 2025. Sob o pretexto de restaurar a democracia e combater o regime de Nicolás Maduro, acusado de ligações com narcoterrorismo, forças americanas capturaram Maduro em uma ação controversa que muitos chamaram de sequestro internacional.
Desde então, os Estados Unidos assumiram o controle efetivo do setor petrolífero venezuelano, redirecionando fluxos de óleo para suas próprias refinarias e impondo sanções a quem ousasse negociar com o antigo regime. Trump justificou isso como medida preventiva para evitar que potências como China e Rússia ganhassem mais espaço na região. “A América do Sul é nosso quintal e vamos limpá-lo”, declarou em discurso no Congresso, ecoando o intervencionismo de presidentes como Theodore Roosevelt, que no início do século XX reforçou a Doutrina Monroe com seu próprio corolário.
É nesse cenário de pressão máxima que Lula decide ir na contramão. Em 5 de fevereiro, o presidente brasileiro hospedou Mikhail Michustin no Palácio do Itamaraty para a oitava reunião da Comissão Brasileiro-Russa de Alto Nível de Cooperação, mecanismo criado em 1997 para fomentar laços bilaterais. Liderada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pelo próprio Michustin, a reunião não foi apenas uma troca de cortesias.
Lula e o premier russo discutiram uma agenda ampla, desde comércio até questões globais, culminando em uma declaração conjunta que pode ser lida como um manifesto anti-intervencionista. O texto defende o multilateralismo como pilar da geopolítica mundial e reafirma a América Latina e o Caribe como uma zona de paz, com base na declaração dos chefes de Estado da CELAC de 2014.
Palavras-chave: respeito mútuo, solução pacífica de controvérsias e não intervenção. Especialistas em relações internacionais veem nisso um recado direto a Trump, uma resposta clara às ações dos Estados Unidos na Venezuela e às tarifas extras impostas a parceiros comerciais para forçar alinhamentos.
A declaração também destaca o compromisso com o fortalecimento do BRICS, bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, prometendo apoio à presidência indiana em 2026 e à cúpula em Nova Délhi. Em um momento em que Trump critica o BRICS como uma aliança anti-americana, essa postura de Lula soa como uma declaração de independência.
Quer que eu organize esse texto em subtítulos temáticos (como A Doutrina Trump, A Crise Venezuelana, A Jogada de Lula, O Papel do BRICS) para dar mais ritmo e clareza à leitura?
Aposta Econômica e Fragilidade Militar: O Dilema Brasileiro
Durante o encontro, Lula enfatizou a necessidade de acompanhar as iniciativas pactuadas para produzir resultados concretos, apontando para o potencial inexplorado no comércio bilateral. Falando em comércio, surge outro pilar da estratégia do presidente: a pivotagem econômica para o Oriente.
Enquanto os Estados Unidos reduzem suas importações de petróleo brasileiro em 26%, caindo para uma média de 193 mil barris por dia em janeiro de 2026, graças ao controle sobre o óleo venezuelano, o Brasil compensou essa perda ampliando as vendas para a China.
De acordo com dados da consultoria Stonix, as exportações de petróleo para o gigante asiático atingiram 1,46 milhão de barris por dia em janeiro, representando 56% do total exportado pelo Brasil, o maior volume desde maio de 2020. Isso contribuiu para um aumento de 13,3% nas exportações totais de petróleo, que alcançaram 2,6 milhões de barris por dia, o maior em quase três anos.
Por que a China? Analistas explicam que Pequim, tradicional compradora de óleo venezuelano, precisou buscar alternativas após as intervenções americanas. Além disso, com preços globais baixos, a China está estocando combustível para suas reservas estratégicas, e o petróleo brasileiro, de qualidade média e ideal para misturas em refinarias, se encaixa perfeitamente.
A Petrobras renovou e ampliou contratos com refinarias chinesas e indianas, com potencial de vendas de até 60 milhões de barris, valendo mais de 3 bilhões de dólares. A Índia, por sua vez, ocupou o segundo lugar nas exportações brasileiras com 201 mil barris por dia, 8% do total.
Esse boom reflete o recorde de produção brasileira em 2025, de 3,77 milhões de barris por dia, um crescimento de 12,3% em relação ao ano anterior, liderando a América Latina segundo a Rystad Energy.
O comércio com a Rússia também ganha destaque. Em 2025, o intercâmbio bilateral somou 10,9 bilhões de dólares, com o Brasil importando 9,4 bilhões, principalmente fertilizantes e combustíveis, e exportando apenas 1,5 bilhão em carnes, soja e máquinas. Lula e Michustin concordaram em diversificar a pauta, incluindo produtos de alto valor agregado para equilibrar a balança.
Em um contexto de desafios externos, como as tarifas de Trump, a declaração conjunta reforça a necessidade de ampliar as trocas. Essa parceria estratégica não é nova, remonta aos anos 2000, mas ganha urgência agora com o BRICS servindo como contrapeso ao domínio dos Estados Unidos.
No entanto, por trás dessa ousadia diplomática, há uma vulnerabilidade gritante: a capacidade militar do Brasil. Lula adota uma posição pragmática, priorizando benefícios econômicos e autonomia regional, mas ignora o fato de que o país não possui forças armadas robustas o suficiente para respaldar tal independência.
Décadas de subinvestimento, agravadas por cortes orçamentários em governos recentes, incluindo o próprio de Lula, deixaram o Exército, a Marinha e a Aeronáutica com equipamentos obsoletos e treinamento limitado para conflitos de alta intensidade.
O orçamento militar de 2026 é de 26,2 bilhões de dólares, o maior da América do Sul, mas representa apenas 1,2% do PIB, abaixo da média da OTAN de 2%. Comparado aos 886 bilhões dos Estados Unidos, é uma fração.
Pior ainda, as forças armadas brasileiras são historicamente alinhadas com os Estados Unidos. Desde a Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil enviou tropas para a Itália ao lado dos aliados, os laços incluem treinamentos conjuntos, como os exercícios Unitas da Marinha e a aquisição de equipamentos americanos.
Recentemente, em 2025, generais brasileiros participaram de simulações com o Comando Sul dos Estados Unidos, focadas em ameaças híbridas na Amazônia — um eufemismo para conter influências chinesas e russas.
Esse alinhamento vai na contramão das decisões de Lula. Enquanto o presidente corteja Moscou e Pequim, setores das Forças Armadas veem nisso um risco à soberania, ecoando críticas de ex-comandantes bolsonaristas que alertam para uma “invasão ideológica”.


